Quando a rivalidade atrasa a evolução

Como qualquer alvinegro quero que o Avaí se dê mal. Se cair para série B, vou secar para descer para a C, se despencar para a D vou ficar de olho para não passar da primeira fase. Torcer contra o maior rival faz parte do negócio.

E também não quero, sendo passional como qualquer torcedor, que mais ninguém de Santa Catarina se dê bem, suba para a série A e tal. Para mim, é Figueira contra o resto tudo.

Se parar para pensar, no entanto, vale se perguntar: até que ponto a mediocridade, a incompetência e os maus resultados alheios servem para nivelar tudo por baixo e atrasar o crescimento do próprio time para o qual torço?

No momento, com o Figueirense numa posição razoavelmente confortável na tábua de classificação, boa parte da torcida alvinegra parece mais animada e disposta a secar o Avaí, se divertir com o sofrimento de seus torcedores e planejar a vingança por 2008.

Até aí tudo bem. Isso também faz a graça do futebol. Mas até que ponto o fato do Avaí estar fazendo um campeonato muito ruim, o tempo todo na zona de rebaixamento, não nos faz nos satisfazermos com o 16º lugar ? se não cair e terminar na frente do time do Sul da Ilha está ótimo. Missão cumprida.

Essa visão é muito fomentada por dirigentes e seus apoiadores. É só elevar o tom da crítica aqui no blog, cobrar mais ambição e melhores resultados, para vir alguém dizer: ?imagina se vocês fossem avaianos, o que não estaria falando agora?. Para alguns desses, a comparação não valia quando o time do mangue subiu para a série A e terminou sua primeira participação em sexto lugar.

Por outro lado, até que ponto o fato deles terem sido campeões estaduais em 1997 e da série C em 1998 não fez o Figueirense se mexer para dar o troco? E até que ponto, o fato deles terem passado boa parte do período de conquistas do Figueira acumulando fracassos não serviu para acomodar o Alvinegro numa espécie de zona de conforto por não ter um rival à altura e diante da incompetência alheia não precisar fazer muito mais do que vinha fazendo para continuar na frente?

Será que o fato do Figueirense ter caído e o Avaí ter subido ao mesmo tempo, além de ter feito uma campanha muito boa logo na primeira temporada na série A ? tão boa que até hoje mesmo eles não entenderem muito bem como e porquê ? e ter se sagrado bicampeão estadual, não serviu para fazer o Alvinegro reagir rapidamente?

Talvez se o Avaí não tivesse subido em 2008, os dois continuariam morgando na segundona até agora, o roto rindo do esfarrapado.

Só que esse período por baixo fez tão mal à alma alvinegra quanto os quase 10 anos de penúria fizeram aos avaianos. O cachimbo deixou a boca torta e agora muito torcedor do Figueira gasta mais energia secando o azulejento do que torcendo para o seu time, tal qual a avaianada que teve sua maior alegria entre 1999 e 2007 quando o seu maior rival perdeu a final da Copa do Brasil.

O Figueirense já passou longos períodos de sofrimento. Na maior parte deles, porém, como de 1975 a 1993, quando passou por um jejum de títulos estaduais, a hegemonia era do interior, principalmente de Joinville e Criciúma, que ainda representavam o Estado nas competições nacionais.

Incomodava, é claro, mas havia um consolo: o Avaí estava numa draga praticamente igual. Foi um período em que os dois se igualavam na mediocridade, quando até pela segunda divisão regional passaram.

E se o Avaí cair como parece estar fadado? O Figueirense vai se acomodar novamente no papel de ?o único time de Santa Catarina na elite do futebol brasileiro?? Vamos nos contentar com 14º, 15º e16º lugares desde que o maior rival permaneça no purgatório da segunda divisão?

Como torcedor, quero mais que todo mundo se ferre e só fique o Figueira na série A. Gosto muito do Márcio Goiano, mas desejo a ele que, no máximo dos máximos, leve o Criciúma até o quinto lugar da segundona…

Com alguém que pára para pensar de vez em quando, no entanto, não posso deixar de me perguntar: em médio e em longo prazos não seria melhor para o próprio Figueirense que o Avaí permanecesse, que o Criciúma subisse para A, que Joinville e Chapecoense chegassem na B e o futebol catarinense finalmente atingisse outro patamar de qualidade dentro do cenário nacional?

Não há resposta fácil e ela varia de acordo com o humor, o momento e o resultado da rodada. Muita gente vai provavelmente me estranhar e reclamar porque levantei essas lebres. Eu mesmo amanhã provavelmente vou deixar a lógica e a razão de lado e me dedicar à secação de costume. A pulguinha, entretanto, vai continuar atrás da orelha.

E você, o que pensa?

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *