Por que está faltando torcedor no Scarpelli?

O Figueirense está num bom momento no campeonato. O time está subindo na tabela, mantendo a invencibilidade por vários jogos e fazendo história. Contra o América Mineiro, no entanto, o público no Scarpelli foi inferior a 8 mil pagantes.

Contra o Bahia, podendo superar a maior série sem perder e a obter a maior sequência de vitórias consecutivos, pouco mais de 9 mil torcedores passaram pelas catracas. Quais são os motivos para esse público tão abaixo do esperado? Por que o torcedor não está comparecendo ao estádio em número condizente com a ótima campanha?

Não tenho a pretensão de ter as respostas certas e nem de considerá-las as únicas explicações aceitáveis para o fato. Vou é levantar algumas bolas aqui para estimular o debate. Concordem, discordem, acrescentem. Está aberta a discussão.

Números inflados

A direção do Figueirense diz que o número de sócios está próximo dos 14 mil. Em torno de 13.800, para ser mais exato. No entanto, contra o América, 7.131 sócios foram ao Scarpelli. Contra o Bahia, este número subiu para 8.856.

É possível que cinco mil sócios decidam não comparecer a um jogo qualquer, mais ou menos importante. Só que não seria a primeira vez que os clubes de Floripa inflam os números.

A gestão passada do Figueira já fez isso, conforme foi divulgado pelo jornal alvinegro. A edição nº 2 mostrou, com dados oficiais do clube, que o total de sócios nunca passou de 8.700 entre 2006 e maio de 2010 – coincidência ou não o então gerente de marketing do clube foi demitido logo depois de ter repassado os dados ao alvinegro. Durante esse período, a então diretoria do clube declarou por diversas vezes que o número de sócios superava a casa dos 12 ou até 13 mil.

As razões para inflacionar a quantidade de associados são variadas. Primeiro porque é uma forma de tentar validar o trabalho que está sendo realizado. Se o número de sócios aumenta constantemente é porque, em tese, grande parte aprova a gestão.

Em segundo lugar, jogar o número para cima ajuda a ter, digamos assim, uma ?margem de manobra? no borderô, se é que vocês me entendem.

A última razão reside no Sul da Ilha. Se o time do lado de lá não tem vergonha de dizer que tem mais de 10 mil sócios enquanto o público nos seus jogos raramente passa dos 7 mil, o Figueira não pode, obviamente, ficar atrás. Se eles têm 10 mil, temos então 13 mil.

Sei que vai ter quem não goste do blog ter levantado esta lebre, mas a hipótese tem sim que ser considerada em qualquer avaliação séria que se faça sobre a presença do torcedor no Scarpelli.

Mudança no perfil

Outra explicação, que não exclui a anterior e pode até explicar a disparidade entre número total de sócios e sua presença nos jogos está na mudança do perfil do torcedor.

A estratégia de priorizar o sócio é lógica e necessária, trouxe benefícios aos clubes ao garantir uma fonte mais segura e previsível de receita . Algumas de suas consequências, porém, são negativas.

A primeira é que sem tanto ?povão? na arquibancada o estádio, em tese, fica mais frio. Teríamos um espectador/consumidor mais exigente e que se acredita mais elegante e requintado. Não ficaria muito à vontade para pular e berrar feito maluco o jogo todo. Além, claro, de uma possível mudança na faixa etária. Diminuiu a gurizada no estádio e sobe o número de trintões e quarentões.

Daí vamos para o poder aquisitivo. Muitos dos que podem pagar 50 ou 100 reais por uma ou mais carteiras de sócio, também podem ter o pay per view em casa e, por ter mais grana, também tem outras opções de lazer. Podem viajar com a família, irem pra casa de praia no fim de semana, almoçarem fora no domingo, etc.

O torcedor com esse perfil pode ser mais exigente para escolher quando ir ao estádio. Se o horário da partida, as condições do tempo, o momento do Figueira ou a qualidade do adversário não lhe agrada, ele opta por ficar em casa e ver pelo PPV ou simplesmente vai fazer outro programa.

Ingresso caro

É outro efeito negativo da política de sócios. Para forçar a associação, os clubes botam o ingresso nas alturas. Com a proliferação dos bares com PPV ? do Morro da Mariquinha a Jurerê Internacional se encontra um ?, o hábito de ir ao estádio vai diminuindo.

Para que pegar trânsito complicado, demorar para chegar ao estádio, demorar para sair, chegar tarde em casa, gastar uma boa grana, se basta caminhar até a esquina tomar duas ou três cervejas durante a partida e 10 minutos depois do jogo estar de volta em casa?

Para minimizar essa ausência, seria necessária, na minha visão, aliar algumas iniciativas simultâneas: oferecer mais vantagens (descontos, prêmios, materiais exclusivos); estender o direito a voto para todos e variar o preço do ingresso de acordo com expectativa de público para o jogo.

Contra o Corinthians no domingo à cinco da tarde, valendo título e/ou Libertadores para os dois, é 50, 70 reais por cabeça. Contra o América-MG num sábado de Oktoberfest às 18 horas, 10 ou 20 reais.

As duas primeiras iniciativas serviriam para incentivar a associação sem apelar simplesmente para a redução de preço (Se for sócio de descoberta paga 50 reais por mês, se não for paga 50 por jogo). O torcedor vai se associar para ver os jogos mais barato, mas também porque terá outras vantagens e poderá participar mais da vida política do clube.

Discurso excludente

Desde daqueles jantares na reta final da série B do ano passado direcionado para os ?alvinegros verdadeiramente comprometidos com o clube?, venho batendo nesta tecla. O discurso do presidente do Figueirense muitas vezes é excludente e desagregador.
Isso acirra os ânimos. Tanto de quem apoia ou concorda com ele quanto de quem não apoia ou discorda. Fica tudo mais violento, virulento. Márcio Goiano ou Jorginho. Elias ou Fernandes. Ou são perfeitos ou imprestáveis. Não há meio termo.

Acredito que muitos torcedores conseguem deixar de lado o maniqueísmo e reavaliar suas opiniões contra ou a favor, mas grande parte não. É oito ou 800. É o cara que acha que o Márcio Goiano não ajudou no acesso, mas sim entregou o título da série B para o Coritiba. É o outro que não admite que Jorginho mereça elogios. Para esse, se o técnico fosse outro ou mesmo o Goiano, o Figueira já estava na Libertadores e brigaria pelo título, em vez de ainda ter que ganhar quase todos os jogos e secar os adversários para chegar na competição continental.

Satisfação com a campanha

A última alternativa, que pode ou não se juntar às anteriores, é que boa parte dos torcedores está simplesmente satisfeita com a campanha. A expectativa era que o Figueira garantisse a permanência na série A. Garantiu. Está ótimo. Agora é hora de secar o rival e se vingar por 2008. É o que mais importa no momento.

Nesse sentido, o discurso público de Jorginho e outros jogadores e dirigentes, talvez tenha influência nessa apatia incompatível com o nível da campanha. A postura pode ter servido para diminuir a pressão sobre os jogadores, mas, por outro lado, também pode ter desmobilizado o torcedor.

Debate aberto

É isso, meus caros leitores. A discussão não se esgota aqui e não deve ser feita com 50 pedras na mão. São argumentos que este modesto escriba levanta para abrir o debate.

Cada um de vocês pode ter as suas explicações e opiniões. Deixe então seus pitacos na caixa aí debaixo. Vamos conversar.

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