O risco de se acreditar em sofismas

De vez em quando surgem algumas avaliações que a gente não consegue entender muito bem a razão. Até supomos de onde vêm, mas os argumentos não resistem à qualquer questionamento mais cuidadoso. A última delas é a afirmação de que é arriscado para o Figueirense se classificar para a Taça Libertadores.

A justificativa é que o clube terá que fazer um investimento além de suas condições atuais. Assim se enfraqueceria financeiramente, depois sentiria as consequências de tal esforço e correria o risco de descer a ladeira em seguida, como aconteceu com Santo André, Paulista, Juventude, Paysandu, Paraná e Sport.

É o tipo de raciocínio que pode ser qualificado como sofisma. A consequência pode parecer ter relação lógica com a causa, mas não é assim, porque cada caso é um caso. Outros times não chegaram a Libertadores e também desceram a ladeira depois de passarem pela série A. Fortaleza, Brasiliense, Bahia, Vitória, Criciúma e Ipatinga são alguns deles.

Muitos desses clubes foram vítimas de gestões incompetentes e temerárias, que, num determinado momento tiveram sucesso no campo, mas cuja conta dos desmandos e da desorganização vieram cobrar seu preço mais à frente.

Santo André, Paulista, Juventude e Sport se classificaram para a Libertadores através da Copa do Brasil, uma competição bem mais lotérica do que o campeonato brasileiro. Os dois primeiros são times do interior paulista que não têm muita torcida.

O Santo André sofre mais a influência dos times da capital, mas mesmo depois de cair da série A para B, montou um ótimo time e foi vice-campeão paulista em 2010. Ao terminar a competição, vendeu o time quase inteiro e foi rebaixado de novo.

O Juventude disputou a Libertadores de 2000, por ter vencido a Copa do Brasil no ano anterior. Foi rebaixado da série A em 2007 e aí desceu a ladeira até a D. Fica difícil, portanto, descobrir qual a relação entre uma participação na competição continental e a queda sete anos depois.

O Paraná Clube foi levado às alturas pelo trabalho da LA Sports e seus blue caps (basicamente sempre os mesmos). O empresário saiu e o time desceu. Luiz Alberto fez o mesmo no Avaí, que está em queda, e seu novo galho é o Coritiba, que está em alta e quase vence a Copa do Brasil. Aliás, diante disso, o que pode se questionar é o resultado e a herança deixada pelas parcerias que os clubes fazem.

O Sport não está falido, pelo que me consta. Continua gastando muito, só que mal. A fórmula preferida no Nordeste é montar um time cheio de medalhões rodados e caros. É só ver a escalação do Bahia na série A e do Sport na B. Às vezes funciona. Na maioria das vezes, não.

Mais receita, mais projeção

A fórmula para o Figueirense ter uma participação digna em uma Libertadores é a mesma que vale para a série A. Dentro de suas condições, montar um bom time, formado não por jogadores renomados e caros, mas por bons valores bem identificados pelo departamento de futebol.

Time com pouca verba tem que saber como gastá-la porque a margem de erro é bem menor. Como já comentei no twitter, não adianta ter grana aos montes e contratar o Edicarlos para a zaga. Todos os zagueiros do Figueira, bem mais baratos, são melhores que ele.

O risco é o clube, depois de uma boa campanha na série A, desmontar a base e não conseguir remontá-la com qualidade similar. No primeiro semestre de 2008, o Figueira liberou Ruy Cabeção, vendeu Chicão, André Santos e Felipe Santana e já havia emprestado Edson para Portugal. O resultado? Rebaixamento no saldo de gols e a pior defesa da série A naquele ano.

Esse risco está sempre presente e independe da participação em uma Libertadores. Mesmo que o Figueirense termine em 10º lugar, jogadores e treinador sairão valorizados da campanha. O clube vai ter que avaliar quais são fundamentais, quais podem ser negociados e quem tem capacidade de substitui-los.

A participação na Taça Libertadores pode, inclusive, servir de chamariz para segurar alguns atletas e conseguir atrair outros. Não vai ser pelo campeonato estadual que esses jogadores vão ficar no Figueira. Até porque o campeonato dura quase seis meses e é extremamente deficitário, reduzindo a capacidade de investimento do clube.

A Sul-Americana é mais arriscada

Tem outra questão a ser levado em conta. A Taça Libertadores é disputada no primeiro semestre, paralelamente ao campeonato estadual. O Figueirense pode rifar a competição catarinense e priorizar a continental.

Pode botar um mistão para disputar os jogos do estadual enquanto joga a Libertadores. Se tudo ir bem, ainda pode chegar numa fase final em Santa Catarina. Se não der, que faça o suficiente para não cair. A Libertadores, por seu ineditismo e importância, é prioridade absoluta.

Não dá para fazer o mesmo com a Copa Sul-Americana, que é disputada concomitantemente ao campeonato brasileiro. Deixar a série A de lado pode ter consequências nefastas. Aí, se quiser ir bem na competição continental vai ter que manter um elenco mais numeroso, mais equilibrado e mais caro ou então correr o risco de levar os principais jogadores à exaustão por causa da maratona de jogos.

No primeiro semestre, é mais fácil de poupar. Dá para encarar a maioria dos rivais catarinenses com um time mesclado. Na série A, tem que ser força máxima quase o tempo todo.

Então, meus caros alvinegros, prestem bastante atenção em certos argumentos. Parecem muito lógicos, mas não resistem à primeira análise mais acurada. Para que e a quem serve propagar esses sofismas são os questionamentos mais importantes.

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