Demagogia não resolve

Seria muito fácil aproveitar a tragédia ocorrida no estádio Heriberto Hülse, em Criciúma, no último domingo, quando um senhor de mais de 60 anos de idade teve sua mão praticamente arrancada por um artefato explosivo, para detonar a torcida do Avaí. Não vamos trilhar este caminho. A presença de gente disposta a fazer confusão e partir para a violência, principalmente dentro de torcidas organizadas, não é exclusividade dos avaianos, embora estes tenham se metido em diversas ocorrências nos últimos anos, por razões que poderemos abordar em outro momento.

Muito fácil é bradar por soluções tão bombásticas e pretensamente radicais quanto inócuas, ineficientes e até perigosas. Muita gente da mídia costuma fazer isso toda vez que um caso de violência estoura nas arquibancadas.

A primeira medida inócua e bombástica é propor o fim das torcidas organizadas, como se, sem um CGC e camisetas uniformizadas, os criminosos infiltrados nesses grupos fossem parar de cometer crimes e como se isso fosse impedir que um grupo de pessoas se juntasse para torcer pelo seu time. Não funcionou em São Paulo e não vai funcionar em lugar algum.

A segunda medida igualmente ineficiente e com um potencial explosivo significativo já foi anunciada pela Federação Catarinense de Futebol nesta segunda-feira à tarde: o fim da divisão entre torcidas nos estádios durante este campeonato estadual. Ou seja, quem quiser torcer pelo seu time num jogo fora de casa não vai poder estar uniformizado e vai ter que ficar no meio da torcida adversária. Além disso, vai ter que ter um autocontrole absolutamente zen para não comemorar gol de seu time, ficar quieto o jogo inteiro e, se for o caso, festejar gol do adversário, sob o risco de ser trucidado durante a partida caso não cumpra essas recomendações.

Tudo isso desestimula um torcedor a viajar com o time? Sim. Impede? Não. Ainda mais quando o jogo for decisivo. E aí o risco de um linchamento ou de uma pancadaria generalizada se torna ainda mais real, e mais incontrolável do que cada torcida em seu canto.

O que precisa ser feito, além de medidas realmente preventivas que impeçam, por exemplo, que uma bomba caseira entre num estádio de futebol, é investigar com competência, identificar quem cometeu o crime, processá-lo e puni-lo. Havia centenas de torcedores do Avaí em Criciúma, mas não foram todos eles que jogaram a bomba. Foi um, talvez com ajuda de um ou mais cúmplices, que arremessou o artefato. É ele que deve ser punido.

A punição ao clube, no campo esportivo, com perda de mandos de campo, também pode ser um caminho para desestimular atos desse tipo, por seu caráter exemplar e educativo. O Figueirense quase perdeu sua vaga na série A por invasão de campo. Perdeu mandos de campo e seu retorno à primeira divisão foi abalado por sete ou oito jogos consecutivos fora de Florianópolis. Depois disso, mais nenhuma invasão foi registrada nas comemorações de título. O clube já perdeu também mandos de campo por objetos arremessados no gramado. Depois disso, nas poucas vezes em que alguém jogou algo no campo foi imediatamente denunciado para a PM por outros torcedores.

Em Santa Catarina, no entanto, nada tem funcionado direito. O TJD é uma figura decorativa. A vistoria nos estádios é uma piada. Rodada após rodada, setores da mídia, dirigentes, treinadores e jogadores fazem discursos inflamados contra erros de arbitragem, denunciando supostos esquemas, armações e roubalheiras, o que só faz acirrar os ânimos das torcidas.

Tudo então tem que ser repensado, mas, por favor, sem demagogia, sem soluções inócuas e bombásticas. Não será isso a resolver o problema.

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