Comemorar sim, mas sem relaxar

O mais importante da partida de ontem no Scarpelli era conseguir a vitória. Para quebrar a série de seis jogos e mais de 70 dias sem vencer em casa, para garantir a permanência na série A com antecipação significativa e para sepultar a conversa sobre o risco de rebaixamento.

Quando comentávamos aqui que o Figueirense podia mais do que se preocupar em não cair, alguns não gostavam, mas o fato de ter eliminado o risco de queda quando ainda faltam oito rodadas para terminar o campeonato, comprova que tínhamos razão.

Sim, ter alcançado este objetivo tão cedo merece todos os elogios, afinal o clube acabou de voltar para a primeira divisão. Em retrospectiva, o Figueirense fez uma campanha acima da expectativa desde o começo do campeonato. Nunca esteve ameaçado de cair, nunca frequentou a zona de rebaixamento, quase sempre se manteve na parte de cima da tabela.

Até por isso, batemos tanto na tecla do ?pode mais?. Em certos momentos não dá para se ater simplesmente a teses, chavões do futebol para avaliar as possibilidades ? orçamento, nome, tradição, tamanho de torcida. É preciso simplesmente analisar o que cada time está fazendo na competição e concluir até onde cada um pode ir.

Então, parabéns a todos pelo primeiro objetivo alcançado. É muito bom tirar o peso do risco de descenso das costas. Só que não dá para parar por aí, como bem disse o gerente de futebol do Figueira, Chico Lins, depois da partida. Não há espaço para acomodação. Esse time tem a chance de fazer história e isso valoriza não só o clube, mas o trabalho de cada um dos envolvidos na grande campanha.

Pra cima, Figueira!


O jogo

Feito o registro sobre o feito obtido ontem, é preciso destacar que o time venceu, mas jogou um futebol abaixo da crítica. Primeiro porque, na minha opinião, Jorginho não abre mão de certos conceitos e de muita cautela, o que está prejudicando sensivelmente o desempenho dentro do Scarpelli. Segundo porque vários jogadores importantes fizeram uma apresentação muito abaixo do normal ? Juninho, Ygor, Elias, Wellington Nem.

Como comentei no post pré-jogo, preferia ver o time começar com Aloísio no ataque, ao lado de Nem porque este foi muito bem em Porto Alegre e Júlio César voltava de contusão muscular.

Além disso, o Figueirense mantém a mesma postura de marcação de quando joga fora de casa, ou seja, aguarda o adversário a partir da linha divisória do gramado. No Scarpelli tem que pressionar a saída de bola do outro time, tem que adiantar as linhas e forçar o erro no campo ofensivo.

O gramado do estádio alvinegro tem as menores dimensões da série A. Não há outro lugar mais talhado para fazer a marcação sob pressão sem correr tanto risco de descompactar o time do que aqui. Fazer isso em campos como Olímpico, Beira-Rio, Morumbi e Serra Dourada ? sem falar em Mineirão e Maracanã ? é muito mais complicado.

Com dois atacantes de movimentação, que jogam mais pelos lados, entrando na diagonal, o Figueirense esbarrava num time montado com três zagueiros e dois volantes. Quando alguém conseguia ir ao fundo, faltava gente na área e faltava gente com características de trombar com os zagueiros. Quando afunilava pelo meio, não tinha ninguém capaz de fazer a parede e aguardar a chegada dos meias.

Aí entra a falta de ousadia de Jorginho ? nem é crítica, é constatação. O técnico alvinegro não gosta de correr riscos, é conservador e um tanto ?quadrado? na armação do time.

O América veio no 3-5-2 e encaixotou o Figueirense. Estava mais bem organizado em campo, bloqueava as jogadas ofensivas, tinha mais a posse de bola, finalizava mais em gol. Em outras palavras, fazia com o Figueira o que o Figueira cansou de fazer com os outros quando joga como visitante.

E aí, no primeiro tempo, além de invidualmente alguns jogadores estarem mal, a insistência de Jorginho em armar o time do mesmo jeito que não vinha funcionando cobrou seu preço.

Uma maneira de quebrar a vantagem númerica do adversário que joga no 3-5-2 na meia cancha é adiantar um jogador para o ataque para eliminar a sobra feita pelo terceiro zagueiro. Automaticamente, um volante vai ter que recuar para compor uma linha de quatro na defesa. Aí lateral bate com lateral e no miolo ficam três contra dois.

Só com a entrada de Aloísio, o Figueirense foi fazer isso. E o resultado veio, mas a virada não veio porque o time passou a jogar melhor ou porque Maicon saiu (depois de Wilson, Fernandes e Juninho, o camisa 8 é o novo alvo para as críticas). Veio porque o time foi para frente, teve mais gente no campo ofensivo e aí a fragilidade do adversário foi exposta. Foi só apertar um pouco para o América confessar.

Aloísio entrou com fome. Pittoni jogou mal. Fernandes não foi brilhante, mas não erra passes como Elias e por isso faz o time jogar mais, sem contar as várias vezes que se desloca para o espaço vazio e não recebe a bola.

Jorginho tem evoluído. Isso é nítido. Começou o campeonato com medo de todo mundo, armando o time fora de casa para não tomar gol e só. Depois conseguiu montar a equipe para agredir em contra-ataques. Falta agora ser mais agressivo em casa.

E, vejam bem, não estou falando em se mandar para o ataque feito louco, como, aliás, acabou tendo que fazer ontem, mas marcar com a mesma disposição que marca fora de casa, mas não em seu campo somente. Tem que fazer essa marcação lá na frente, não deixar o outro time respirar.

Por fim, o pequeno público de ontem no Scarpelli merece o registro negativo. Há vários fatores e motivos envolvidos nisso, mas se o clube tem mesmo perto de 14 mil sócios, não dar nem 8 mil numa partida da importância da de ontem é decepcionante e aí é necessário analisar detidamente as razões em vez de só malhar o torcedor.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *